Se nos anos 2000 a ideia de que o PlayStation 2 poderia ser usado para fins bélicos não passava de uma lenda geopolítica, uma década depois o governo norte-americano decidiu transformar o conceito em realidade científica pura. Em dezembro de 2010, o Laboratório de Pesquisa da Força Aérea dos Estados Unidos (AFRL), sediado em Rome, Nova York, inaugurou oficialmente o Condor Cluster: um supercomputador militar de defesa construído interligando nada menos que 1.760 consoles PlayStation 3 de primeira geração (o clássico modelo Fat).
Na época de sua inauguração, a estrutura entrou diretamente para a lista dos 50 supercomputadores mais potentes do planeta, atingindo a marca assombrosa de 500 TeraFLOPS (meio quatrilhão de operações de ponto flutuante por segundo). Mas por que o Pentágono escolheu um videogame de sala de estar em vez de encomendar servidores industriais tradicionais da IBM ou da Cray?
O Segredo Estava no Chip Cell Broadband Engine
A resposta reside na ambição descomunal de Ken Kutaragi e da aliança STI (Sony, Toshiba e IBM), que investiu mais de US$ 400 milhões no desenvolvimento do processador Cell Broadband Engine do PlayStation 3. Diferente das CPUs convencionais da época, o Cell possuía um núcleo principal PowerPC ladeado por múltiplos coprocessadores vetoriais ultrarrápidos chamados SPEs (Synergistic Processing Elements).
“O processador Cell do PlayStation 3 era tão absurdamente avançado para cálculos matemáticos paralelos que comprar um console nas lojas por US$ 400 entregava mais poder bruto por dólar do que qualquer servidor militar existente no mercado.”
Para piorar a conta para os fabricantes tradicionais de supercomputadores, a Sony vendia cada unidade do PlayStation 3 com prejuízo (subsidiando o hardware para lucrar depois com a venda de jogos). Como o modelo original do PS3 vinha de fábrica com o recurso OtherOS — que permitia instalar distribuições Linux oficialmente no console —, cientistas e militares perceberam que podiam comprar milhares de PS3 a preço subsidiado, instalar Linux em todos eles e nunca comprar um único jogo sequer.
A Matemática de US$ 2 Milhões Contra US$ 50 Milhões
Os números financeiros e energéticos do Condor Cluster chocaram a indústria da computação de alto desempenho:
- Custo 90% Menor: O projeto inteiro custou cerca de US$ 2 milhões ao Departamento de Defesa dos EUA. Um supercomputador equivalente construído com peças de servidor tradicionais teria custado entre US$ 40 milhões e US$ 50 milhões.
- Eficiência Energética: O cluster de 1.760 PS3 (acompanhado por 168 GPUs e 84 servidores de coordenação) consumia apenas 10% da energia elétrica de um supercomputador convencional de capacidade similar.
- Aplicação Militar Real: A Força Aérea utilizou o Condor Cluster para processamento de imagens de radar de altíssima resolução em tempo real (Synthetic Aperture Radar), rastreamento de múltiplos alvos em vigilância aérea e pesquisas em inteligência artificial neuromórfica.
A Reação da Sony e o Fim do Linux no PS3
O sucesso do Condor Cluster (e de dezenas de universidades que também estavam comprando lotes de PS3 para montar laboratórios baratos) acendeu um alerta vermelho em Tóquio. A Sony estava perdendo centenas de dólares por console vendido para instituições que jamais comprariam um Blu-ray de Uncharted ou God of War III. Além disso, o lançamento do modelo PS3 Slim (que já saía de fábrica sem suporte ao OtherOS) criou um dilema para a Força Aérea: se um PS3 Fat queimasse no cluster, não era possível substituí-lo por um modelo novo das lojas.
Em abril de 2010, através da polêmica atualização de firmware 3.21, a Sony removeu definitivamente o recurso OtherOS de todos os PlayStation 3 existentes, citando preocupações com segurança e pirataria — uma decisão que não apenas gerou processos judiciais milionários e irritou a comunidade hacker (levando GeoHot a quebrar as chaves mestras do PS3), mas também encerrou a era mais inusitada em que um videogame doméstico serviu oficialmente como cérebro da defesa aérea norte-americana.



